Prometo te esperar à meia-noite
Aqui dá vontade de escrever. O desespero precisa de palavra, expressão, registro pra tomar forma e pesar. Pesar de pesado, gravidade, corpo colado na cadeira, joelho doendo, estômago gritando. O peito dói na UTI, sinto a respiração diferente. Todo dia, mais. Calma, calma, não seja assim, isso faz mal. Mas em que contexto o que faz bem, faz bem? Lembrei de um amor de quinze anos, era bobo ele, me tinha toda apaixonada. Não, não era paixão, era tesão. Pela primeira vez entendi um beijo e uma língua, a suculência e que saliva importava. Ele já devia saber ou não. Na verdade, precisava que outras meninas o quisessem tanto assim. Gravou uma fita cassete, as melhores músicas, dançamos como mágica. Era ali que morava a embriaguez, muito antes do álcool. Logo depois sumiu da festa. Procurei por ele, em cada cômodo cheirando a mofo histórico do sobrado/ república de um canto de Ouro Preto. O encontro ali, fujão, com minha amiga, tentado lhe roubar beijos. E depois fiquei com ele, mais uma e mais mil, até que tudo virou espuma, água e desceu ralo abaixo. Pensei nele hoje, queria ser médico. Eu dormindo no hospital, noite após noite, médico, enfermeiro, técnico, fisioterapeuta, nutricionista, auxiliar, a limpeza, o laboratório, outro médico, médica, técnica, enfermeira, troca de plantão, prescrição, parâmetros, resposta, dreno, fome, sono, dor. De ter visto ali no quarto com outra, o menino que gostava, por entender pela primeira vez o que era acordar o corpo para algum prazer cabendo existir e mesmo assim me fugindo pelos dedos, desejando mais, desejando outra. Nada seria suficiente, teria sido assim por toda a vida (dele)? Comigo foi. Os desejos passavam escorregadios. Demora muito pra ver. Demora até agora. Mas o apito apita, o painel ecoa o coração, a respiração não para. Sigo viva.
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