Dança da Chuva
Vi as fotos de uma festa agora. Festa que em outros momentos fiz parte intensamente, mas hoje, já não faço mais. Mudei, mudou.
Achei que de um modo geral as pessoas parecem um pouco distorcidas, enquanto pensava isso logo vieram mais fotos e agora com efeitos de distorção, mesmo.
Apesar de achar que alguma coisa nos rostos das pessoas já dizia isso.
Por um olho, uma boca, um sorriso indigesto.
Fiquei pensando.
Alguma coisa deixou meu olho, também, fora do lugar. Do que ia, via.
Além das nossas publicações coloridas na pele, que são muitas e enormes, estampas que nos chamam por kilômetros, tem também o outro, o do cenário, maquiagem, das cores do gliter, dos sapatos envernizados, olhos vibrantes, piercings que brilham mais perto que as estrelas.
A questão não é falar que isso é isso ou aquilo, porque seria injusto pedir um mundo sem deformações, sem diferença, interferência, liso demais, estreito demais, justo demais, descolorido.
Recorro ao velho saber: na sombra está a verdade. O escondido. O novo que não vejo e crio.
O que me chama a atenção é que isso é um fato.
E não sei ao certo até onde vou, mas penso que a própria fotografia já é outra coisa da realidade, ela é uma captura de uma parte que foi, aconteceu, a fotografia é momento morto, alimenta memória e revela o que não é mais. Além dessa distância, vamos criando outras mais. Mais, mais, mais.
Na lente, na cor, na forma, no programa da internet da semana passada, que hoje já deforma mais, exagera.
Tenho a ligeira impressão de que queremos a todo custo ser outro e não fazer parte dessa realidade.
Porque essa realidade não é vista como antes, não se toca, retoca, retoca. Claro, se toca, veja bem, mas mudou tudo. Tudo.
Está lá no mundo longe dela, da tela, do que eu não posso sentir cheiro. Está do outro lado.
Trago isso como questão simbólica. É muito gostoso ver os amigos nas festinhas, sim! Tirar fotos engraçadas com cabeças gigantes, sim! E ainda enfeitar tudo de cores, pensar que estamos dentro de um filme do Almodóvar, sempre belo. Depois correr para casa, postar tudo, comentar, ra ra ra para cá e ra ra ra para lá. Não tiro a realidade do fato, mas fico procuro pelo invisível que está ali, através do vestido, do cacho escondido, do esmalte verde floresta ou tentação cremosa na unha e azul cotelê no cabelo, cotelê do fê, no espelho novo que vê o que eu quero ver. Meu novo parâmetro.
Muitas pessoas se parecem. Nós nos parecemos, demais, quase iguais.
Ainda acho que somos muito iludidos, somos massa, diluidos.
E tanta chuva, mas tanta chuva vem mais uma vez me lembrar da solutio.
Diluir, diluir.
Água, líquido, rápido, escorregadio, transitório, sem forma, úmido, choro, batizado e nascimento.
Sinto-me assim, instável, informal, sem definição por mais que lute para tê-la, mesmo sabendo que esse tempo é sem tempo, é crer, seguindo rio e lágrima até próxima etapa.
Achei que de um modo geral as pessoas parecem um pouco distorcidas, enquanto pensava isso logo vieram mais fotos e agora com efeitos de distorção, mesmo.
Apesar de achar que alguma coisa nos rostos das pessoas já dizia isso.
Por um olho, uma boca, um sorriso indigesto.
Fiquei pensando.
Alguma coisa deixou meu olho, também, fora do lugar. Do que ia, via.
Além das nossas publicações coloridas na pele, que são muitas e enormes, estampas que nos chamam por kilômetros, tem também o outro, o do cenário, maquiagem, das cores do gliter, dos sapatos envernizados, olhos vibrantes, piercings que brilham mais perto que as estrelas.
A questão não é falar que isso é isso ou aquilo, porque seria injusto pedir um mundo sem deformações, sem diferença, interferência, liso demais, estreito demais, justo demais, descolorido.
Recorro ao velho saber: na sombra está a verdade. O escondido. O novo que não vejo e crio.
O que me chama a atenção é que isso é um fato.
E não sei ao certo até onde vou, mas penso que a própria fotografia já é outra coisa da realidade, ela é uma captura de uma parte que foi, aconteceu, a fotografia é momento morto, alimenta memória e revela o que não é mais. Além dessa distância, vamos criando outras mais. Mais, mais, mais.
Na lente, na cor, na forma, no programa da internet da semana passada, que hoje já deforma mais, exagera.
Tenho a ligeira impressão de que queremos a todo custo ser outro e não fazer parte dessa realidade.
Porque essa realidade não é vista como antes, não se toca, retoca, retoca. Claro, se toca, veja bem, mas mudou tudo. Tudo.
Está lá no mundo longe dela, da tela, do que eu não posso sentir cheiro. Está do outro lado.
Trago isso como questão simbólica. É muito gostoso ver os amigos nas festinhas, sim! Tirar fotos engraçadas com cabeças gigantes, sim! E ainda enfeitar tudo de cores, pensar que estamos dentro de um filme do Almodóvar, sempre belo. Depois correr para casa, postar tudo, comentar, ra ra ra para cá e ra ra ra para lá. Não tiro a realidade do fato, mas fico procuro pelo invisível que está ali, através do vestido, do cacho escondido, do esmalte verde floresta ou tentação cremosa na unha e azul cotelê no cabelo, cotelê do fê, no espelho novo que vê o que eu quero ver. Meu novo parâmetro.
Muitas pessoas se parecem. Nós nos parecemos, demais, quase iguais.
Ainda acho que somos muito iludidos, somos massa, diluidos.
E tanta chuva, mas tanta chuva vem mais uma vez me lembrar da solutio.
Diluir, diluir.
Água, líquido, rápido, escorregadio, transitório, sem forma, úmido, choro, batizado e nascimento.
Sinto-me assim, instável, informal, sem definição por mais que lute para tê-la, mesmo sabendo que esse tempo é sem tempo, é crer, seguindo rio e lágrima até próxima etapa.
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