O grito chega até a montanha
Você deveria pensar em que estado as coisas te deixam quando elas acontecem e te surpreendem. Você deveria. Absorver e observar, sentir a raiva toda de ser sentida e depois acolher o estado em que ela te deixa. É verdade que chegaremos no chavão, repetitivo, é verdade. Mas não. Não há vendas aqui, com a coisa de ser frase cheia de acreditar no que não se crê. É preciso saber-se real acima de tudo. Que o seu desejo, a sua tristeza, a sua vontade de sumir são reais. Que a maneira de aprender a lidar com tudo que frustra, agride e dilacera deve ser teu caminho encantado em que pés são pés e pisam no chão e o chão tem várias cores e texturas e ainda assim você pisa. Cada chão tem sua lama em dia de chuva, dia de levar mortos de uma barragem a beira de um colapso nunca ouvido. Cada chuva tem sua água de levar mais mortos pela correnteza. O filho escapa das mãos do pai que a filha tentou socorrer. Lágrimas. Volta ao monte e seja o que é. Desvende. A sua montanha. Se aproxime do ponto da sua dor. Então descobrir uma outra para ser abraçada junto a sua. Esse abraço vira apoio na pedra grande diante da água turva. Você segura firme a pedra, tem força no braço a ponto de subir. Senta. Respira. Vira pulmão em movimento expelindo o sufocamento. Sufocamento de queimada, de índio morto, de cultura morta, de todas as águas das minas, lindas e gerais, jorradas inversas. A sua própria alma, a morada invadida, a monstruosidade de quem acariciou seus cabelos para te embalar numa efêmera crença logo após engolir de bote de serpente o seu bem mais guardado. O que era confiar, traído. Está vivo o impacto de se saber com medo, despreparado e frágil. Cresce a fome de controle. A sede de proteção. Senhas. Mas você deveria, você deveria pensar no estado que as coisas te deixam. Você deveria ter o medo de perto, o seu estado de entrega na onda d'água, o seu estado. A sua entrega. Você deveria saber antes de tudo e depois de tudo, você deveria. E um grito seguido da cabeça que abaixa em direção ao peito. Estreito ninho de razão, coração. Tocar o impalpável desejo de acordar vivo para existir em todas as partes. C
omunhão. Do jeito que der, do jeito que a natureza tem de você escutar. Você deveria.
omunhão. Do jeito que der, do jeito que a natureza tem de você escutar. Você deveria.

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